quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O xadrez eleitoral de Aécio Neves

Diversos analistas têm colocado Aécio Neves entre os potenciais perdedores das eleições de outubro. É verdade que uma derrota do candidato “aecista” na disputa para o governo do estado será uma derrota para o ex-governador.

Mas o que muitos analistas têm ignorado é que as chances de Aécio fazer “barba, cabelo e bigode” nas eleições em Minas Gerais são igualmente grandes às chances dele sair enfraquecido das urnas. Aécio se elegerá senador com uma votação histórica e tem chances de eleger o outro senador (o ex-presidente Itamar Franco) e o governador do estado (o atual governador Antônio Anastasia). Caso isso ocorra, é bastante provável que Aécio saia das eleições como a principal liderança dos partidos de oposição, sendo o único político brasileiro que poderá afirmar que venceu com facilidade várias eleições em um estado “lulista”.

A idéia de Aécio como líder da oposição pode soar estranha para alguns. Não foram poucos aqueles que imaginaram que Aécio sairia do PSDB e aderiria ao governo. Acredito inclusive que ele próprio deve ter considerado essa possibilidade. Tanto que Aécio fez uma improvável aliança com o PT na disputa eleitoral em Belo Horizonte.

Afinal, três anos atrás o PT não tinha um sucessor para Lula, o próprio Lula não tinha nem de longe a popularidade que ele tem hoje e uma aliança tão sólida com o PMDB era apenas um sonho de alguns membros do governo. Parecia óbvio que a base governista teria mais de um candidato a presidente.

Mas a popularidade crescente de Lula e a escolha de Dilma como sua sucessora mudaram o quadro eleitoral. É exatamente aí que entra a habilidade de “enxadrista” do ex-governador mineiro. Aécio percebeu antes de todo mundo que essa mudança de quadro praticamente inviabilizava uma candidatura de terceira via, se afastou taticamente de Lula e ficou no PSDB.

Ele ainda tentou viabilizar sua candidatura a presidente por esse partido, consciente que uma derrota não impactaria tanto nas suas perspectivas políticas futuras. Sua idéia era convencer o partido que ele era capaz de agregar mais apoios políticos que qualquer outro tucano. Não funcionou e Aécio foi derrotado na disputa interna. Mas a derrota não o tirou a convicção que as alianças e o discurso tradicionais dos partidos de oposição seriam incapazes de vencer a eleição e recusou o posto de candidato a vice-presidência.

Aécio então se voltou para a disputa regional com o claro objetivo de fazer “barba, cabelo e bigode” no estado e assim se fortalecer nacionalmente. Para mim está claro que ele fez essa escolha. Senão ele não desfaria a aliança com o petista Fernando Pimentel e ainda construiria a candidatura do ex-presidente Itamar Franco ao senado com o objetivo de impedir o crescimento da candidatura do próprio Pimentel.

Se a estratégia de Aécio funcionará ou não é difícil saber. Ele enfrenta candidatos conhecidos de dois partidos (PT e PMDB) extremamente fortes, bem articulados e com apoio de Lula em um estado tradicionalmente “lulista”. Basta ver como estão as pesquisas em outros estados com características parecidas para ver que a tarefa dele não é lá muito simples.

Mas, independente do resultado das eleições, o ex-governador mineiro tem o inegável mérito de ter entendido o processo político muito antes do que qualquer membro da oposição (será que vale incluir o Montenegro na cota de oposicionistas?) e mesmo na situação (como foi o caso de Ciro Gomes).

PS: Uma pergunta interessante é saber se interessa ao PT ter Aécio como a principal liderança da oposição de um eventual governo Dilma. Acho que para o país seria bom porque sua liderança diminui a chance de “americanização” (ou seria emburrecimento?) da oposição que cresce a cada dia. Mas para o PT talvez não seja vantajoso. O estilo raivoso das principais lideranças da oposição nos últimos anos favorece o governo eleitoralmente e é exatamente o contrário do estilo de Aécio. Se eu fosse estrategista do PT, começaria a pensar se não é hora de Lula e Dilma entrarem tão pesado nas campanhas de Hélio Costa, Patrus Ananias e Fernando Pimentel quanto estão entrando nas campanhas dos candidatos petistas ao governo e ao senado em São Paulo. Até porque Anastasia subiu nas intenções de voto para governador e Itamar tem larga e estável vantagem sobre Fernando Pimentel na disputa pelo senado.

4 comentários:

He will be Bach disse...

Bons comentários!
De minha parte, torço mesmo por uma qualificação da oposição, nem que não seja pelo Aécio. Uma oposição fraca demais dá ao governo, para usar expressão do Alon, "sensação de onipotência". Creio que essa sensação explica (sem justificar, claro) as recentes burradas de Lula (chamar os presos políticos de Cuba de criminosos, por exemplo, ou mesmo a aproximação com o Irã).

Sérgio Salim disse...

São várias as coisas que precisam ser melhoradas no Estado de Minas Gerais, principalmente na infra-estrutura. O crescimento da figura do Aécio durante todo seu governo contou com algumas oposições e questionamentos, mas muita aprovação em todas as frentes. Das duas, uma: ou a população mineira tem ligado a imagem de Aécio à de Lula, pela qualidade do seu governo, ou ele tem sabido sobrepor suas realizações às suas falhas com uma maestria muito maior que aquela de seus opositores em questioná-lo. De qualquer forma, fica um limite bem tênue entre o que é feito da União e o que é feito do Estado de Minas. Na lógica de PSDBistas, quando algo é bom, foi Aécio quem fez; quando é ruim, a culpa é do Lula. E o Aécio só sai ganhando, inclusive sorrisos do próprio Lula. Essa é minha impressão.

Arthur disse...

Grande Sérgio! Tô honrado com um comentário seu aqui! Eu concordo com você. Até acho que o governo do Aécio foi bom. Mas a linha entre o que ele fez e não fez ou o governo federal que fez é tênue, especialmente porque não existe crítica à ele na mídia local.

Arthur disse...

HwbB, desculpas a demora em responder. Acho que também torço para o Aécio se firmar como A liderança da oposição. Ele certamente não faz o estilo raivoso de alguns dos nossos oposicionistas.

Só me dá tristeza ver dois ótimos quadros do PT (Patrus e Pimentel) no rumo da derrota. Queria vê-los fortalecidos porque são ótimos políticos e gestores públicos do tipo que o PT desesperadamente precisa.

Quanto ao enfraquecimento da oposição depois dá uma olhada no post do Idelber hoje! Essencial!

Abs